Antes desse tema surgir na aula eu já estava me questionando sobre as diferenças de escrever à mão e no computador. Refletindo sobre meu processo percebi que tenho dificuldade em escrever um texto mais pessoal no computador. Quando se trata de um texto acadêmico, realmente prefiro digitá-lo, mas quando se trata de um texto em que eu me exponho mais, acho mais difícil esse processo.
Eu costumo registrar meus sonhos em um caderno, e sempre fiz isso sem me preocupar com a escrita mas depois das discussões nas aulas da oficina, passei a reparar mais nas palavras utilizadas, na forma da escrita. Esse já foi um exercício muito interessante e acho que me ajudará na escrita de textos mais pessoais.
Essa reflexão tem muita relação com o trabalho que eu faço de acompanhamento terapêutico e pedagógico com crianças com distúrbios graves. Não sou psicanalista, mas utilizo alguns referenciais dessa teoria para o trabalho. Um dos meninos que eu acompanho tem 9 anos e praticamente não fala, isso não significa que ele não possa escrever. Então iniciei um trabalho intenso de alfabetização. Ele começou a escrever seu nome e, após um tempo, começou a fazer cópias dos nomes dos colegas da classe. Atualmente ele escreve silabicamente (uma letra para cada sílaba). Para que ele escrevesse, utilizava folhas sulfites (já que a letra dele é grande) e o computador. A escrita dele costuma ser muito melhor no computador.
Para psicanálise, a escrita é uma produção do sujeito, mas ao mesmo tempo o produz, já que ela é estruturante, constituinte. Ela é anterior ao sujeito e participa de sua constituição. A escrita não é uma reprodução da fala, mas sim uma outra modalidade de linguagem (por isso a criança pode aprender a escrever sem ter a fala adquirida). Existe uma tentativa do sujeito se dizer através da escrita, ela é uma construção subjetiva. Quando uma criança começa a escrever, ela abre mão de algo que é só do dela para se inserir em algo que é da cultura. Quando se escreve (à mão) há uma implicação do sujeito. O sujeito escreve para o outro, a criança é alfabetizada por uma demando do outro.
Juntando tudo: A questão dessa criança é justamente na relação com o outro, ela não tem nenhum deficit cognitivo, mas mesmo assim não aprende igual as outras crianças. Ela escreve melhor no computador porque o computador serve de intermediário na relação, ele não escreve diretamente para o outro e sim utilizando uma máquina, o que é muito mais confortável para ele. Então por que não utilizar só o computador? Porque é justamente na escrita à mão que o sujeito se coloca, ele tem que se implicar nesse processo, como se escrevendo a mão ele fizesse os laços na relação que não foram feitos. Acredito então que escrevendo, ele vai poder se constituir como sujeito de uma maneira diferente.
2 comentários:
Irene,
adorei o seu texto e concordo com tudo!!! Principalmente quando vc diz que a escrita é uma produção do sujeito, mas ao mesmo tempo o produz.
Beijos, Fê
Irene, que legal vc tomar essa iniciativa e alfabelizar seu "aluno", concordo também com você, é isso escrever a mão expõe o sujeito para sua produção.
beijos Carol
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