segunda-feira, 21 de abril de 2008

A voz do escritor

Alguns trexos do livro "A voz do escritor" de A. Alvarez:

"O que estou dizendo é que escrever é literalmente uma arte viva e também criativa. Simplesmente não acontece dos escritores "pararem, inertes, como um espelho da natureza", criando assim uma imitação da vida; o que criam é um momento de vida em si. (...) O poeta respira, saindo da página de modo tão vivido quanto aqueles rostos, mortos há muito tempo, e seu pequeno cão respiram na tela. Mas é um pacto de mão dupla: o escritor se faz ouvir e o leitor lhe dá ouvidos - ou, mais precisamente, o escritor trabalha para criar ou encontrar uma voz que irá alcançar o leitor, fazendo-o apurar ouvidos e prestar atenção." (p. 19)

"Ao comparar o ato de escrever à psicanálise, estou implicitamente afirmando que para um indivíduo encontrar a sua voz própria como escritor, em determinados aspectos é como o caprichoso processo de se tornar adulto. Para o escritor também é um instinto básico, como um pássaro demarcando seu território, embora não o faça de modo tão musical, nem tão abertamente. Então como fazê-lo? Em primeiro lugar, precisamos fazer o que todos os jovens fazem: experimentamos as personalidades de outras pessoas e nos apaixonamos. De fato, jovens escritores são uma raça peculiar e bastante promiscua: minhas paixões de garoto foram, entre outras, Eliot, Auden, Housman, Aldous Huxley, uma após a outra, quase sem intervalos entre elas. Toda promiscuidade em série tão frequente quanto essa culmina em le coup de foudre, amor á primeira vista: a pessoa ouve uma voz e a reconhece, e se convence de que a voz se dirige a ela, com tanta convicção quanto reconhece a srta. mulher-da-sua-vida, bem ali, no outro lado da sala, mesmo antes de conversar com ela, e mesmo quando - ou especialmente quando - ela está de mãos dadas com o sr. sujeito-que-não-serve-para-ela. No início a voz do escritor deslumbra aquele leitor, e ele lê tudo em que ele pode pôr as mãos. Se isso não o cura, a enfermidade se torna aguda e ele fica obcecado por tudo que diz respeito à vida do seu bem-amado: o que ele fez, para onde viajou, e até mesmo com que tipo de gente foi para cama. Não que esse leitor queira ser como o escritor, o leitor quer ser o escritor." (p. 27 e 28)

Nenhum comentário: